Novo estudo detecta vários períodos de água na Cratera Jezero e reforça suspeita de vida em Marte

Cientistas que analisam dados do rover Perseverance identificaram ao menos três fases distintas de interação entre água líquida e rochas na Cratera Jezero, em Marte. O trabalho, publicado em 20 de setembro de 2025 no Journal of Geophysical Research, sustenta a hipótese de que o local reuniu condições habitáveis em diferentes épocas.

Como o estudo foi conduzido

A pesquisa, liderada por Eleanor Moreland, estudante de pós-graduação da Universidade Rice (EUA), examinou 24 minerais catalogados pelo Instrumento Planetário para Litoquímica de Raios X (PIXL) a bordo do Perseverance desde 2021. As amostras abrangeram várias rochas vulcânicas do fundo da cratera.

Para interpretar as medições, a equipe utilizou o algoritmo Identificação Mineral por Estequiometria (MIST), desenvolvido na própria universidade. A ferramenta atribui níveis de confiança aos minerais detectados e apoiou milhares de simulações estatísticas, semelhantes às usadas em previsões de furacões, para reconstruir o ambiente marciano.

Três ambientes identificados

Os autores descrevem três estágios de interação água-rocha:

  • Fluidos quentes e ácidos – registrados em minerais como greenalita, hisingerita e ferroaluminoceladonita, considerados menos favoráveis, embora não excluam a vida.
  • Águas mais frias e neutras – que formaram minnesotaíta e clinoptilolita, condições vistas como mais amigáveis a microrganismos.
  • Ambiente alcalino e frio – indicado pela sepiolita, mineral associado a locais altamente habitáveis.

Segundo Moreland, esses resultados mostram que “mais de uma vez esse local hospedou ambientes potencialmente adequados para a vida”. A pesquisa também confirmou a presença de piroxênio, feldspato e olivina, reforçando que o chão de Jezero se originou de fluxos de lava posteriormente alterados pela água.

Relação com a bioassinatura anunciada pela NASA

Em 10 de setembro, a NASA divulgou indícios de possível vida microbiana antiga em uma rocha do Cânion Safira, também em Jezero. Embora o novo estudo não tenha analisado diretamente essa amostra, os autores afirmam que as mesmas condições habitáveis se repetiram em outros pontos da cratera.

Próximos passos e disputa por amostras

O algoritmo MIST ajuda a priorizar quais tubos de coleta do Perseverance devem retornar à Terra. O Programa de Retorno de Amostras de Marte (MSR), previsto para 2035, passa por revisão devido a restrições orçamentárias. A China, por sua vez, pretende entregar material marciano por meio da missão Tianwen-3 já em 2031.

Katie Stack Morgan, cientista do projeto Perseverance no Laboratório de Propulsão a Jato (JPL), lembrou que o rover “está perto do limite do que pode fazer” e que cada tubo armazenado pode conter pistas cruciais sobre vida fora da Terra. As análises em laboratórios terrestres serão essenciais para confirmar se as evidências têm origem orgânica ou puramente mineral.

As descobertas fornecem contexto geológico para os sinais detectados pelo Perseverance, mas ainda exigem verificação em solo terrestre antes de qualquer conclusão definitiva sobre vida em Marte.

Com informações de Olhar Digital